sexta-feira, 16 de abril de 2010

Completo

Vê.

Todas as cores, todas as formas, todas as luzes que iluminam o caminho que tens à tua frente, todos os reflexos nas poças deixadas pela chuva, todos os raios de sol que entram pela janela e se derramam pelo chão, todas as coisas em que não reparas mas que estão lá, à espera que as descubras, tudo aquilo que o mundo quer que tu vejas.


Ouve.

Todos os sons, todas as notas, todas as músicas que te transportam para lugares e tempos que achavas que se tinham perdido, todas as vozes que te rodeiam sem que as escutes, todos os sussurros que ocultam segredos por revelar, todas as palavras que gostarias um dia de ouvir repetidas, todos os ecos das tuas próprias palavras, tudo aquilo que o mundo quer que tu oiças.


Cheira.

Todos os odores, todos os aromas das flores que crescem nas calçadas sem se preocuparem, todos os perfumes que te prendem e se sentem na alma, todos os eflúvios que se desprendem da natureza que te envolve, todas as fragrâncias que se inspiram e expiram num instante, tudo aquilo que o mundo quer que tu cheires.


Saboreia.

Todos os sabores, todas os pratos acabados de fazer que te satisfazem e deleitam, todas as garfadas que se desfazem na boca em mil paladares, todos os pães quentes que acabaram de sair do forno, tudo aquilo que o mundo quer que tu saboreies.


Sente.

Todas as texturas, todas as gotas de chuva que te escorrem pelo cabelo, todos os toques macios de outra pele na tua, todas as sensações que te despertam e arrepiam, todas as sensações suaves que te tocam por fora e por dentro, todas as coisas que o mundo quer que tu sintas.


Sê.

Aquilo que apenas tu podes ser.


És completo.



(Isto foi fruto de uma inspiração súbita. Espero que gostem.)

F.

1 comentário:

  1. Não é o fruto de uma inspiração, até porque, provavelmente, o meu possível talento não daria para tal, mas, ao ler o que escreveste, não pude deixar de estabelecer uma espécie de analogia com este poema que me deram a conhecer quando a minha adolescência principiava a gatinhar:

    ...

    Se podes conservar o teu bom senso e a calma
    num mundo a delirar para quem o louco és tu;
    se podes crer em ti com toda a força de alma
    quando ninguém te crê se vais faminto e nu

    Trilhando sem revolta um rumo solitário;
    se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
    tu podes responder subindo o teu calvário
    com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

    se podes dizer bem de quem te calunia,
    se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
    mas sem a afectação de um santo que oficia
    nem pretensões de sábio a dar lições de amor;

    se podes esperar, sem fatigar a esperança,
    sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho;
    fazer do pensamento um arco de aliança
    entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;

    se podes encarar com indiferença igual
    o triunfo e a derrota, eternos impostores;
    se podes ver o bem oculto em todo o mal
    e resignar, sorrindo, o amor dos teus amores;

    se podes resistir à raiva e à vergonha
    de ver envenenar as frases que disseste
    e que um velhaco emprega eivadas de peçonha,
    com falsas intenções que tu jamais lhes deste;

    se podes ver por terra as obras que fizeste,
    vaiadas por malsins, desorientando o povo,
    e sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
    voltares ao princípio a construir de novo;

    se podes obrigar o coração e os músculos
    a renovarem um esforço há muito vacilante,
    quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
    só existe a vontade a comandar: - avante!...

    Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre;
    se vivendo entre os reis, conservas a humildade;
    se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre,
    são iguais para ti à luz da eternidade;

    se quem conta contigo encontra mais que a conta;
    se podes empregar os sessenta segundos
    de um minuto que passa em obra de tal monta
    que o minute se espraie em séculos fecundos,

    então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
    já dominaste os reis, os tempos, os espaços,
    mas ainda para além, um novo sol rompeu,
    abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

    Pairando numa esfera acima deste plano,
    sem receares jamais que os erros se retomem,
    quando já nada houver em ti que seja humano,
    alegra-te, meu filho, então serás um homem!


    (RUDYARD KIPLING)

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